segunda-feira, 23 de maio de 2011

Saúde Mental e Medicalização da Infância




O Brasil é um dos países que mais consomem o psicotrópico metilfenidato. Este medicamento, popularmente conhecido como Ritalina, atua no tratamento do que de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mental é chamado de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Foram 2 milhões de caixas consumidas em 2009 . No caso de TDAH, muitas vezes o diagnóstico é realizado quando a criança entra na fase escolar. Em outros casos, é aplicado de maneira preventiva para que a criança não desenvolva tal transtorno.

Alguns pesquisadores (
Dr. Thomas Szasz e a psiquiatria e ADHD among American Schoolchildren) vêm apontando os efeitos nocivos do uso de medicações psicotrópicas em crianças. Não somente em relação ao TDAH, mas também referente aos diversos transtornos da infância. Podemos esboçar aqui um início de questionamento não somente daquilo que chamamos de intoxicação pelo uso excessivo de medicamentos, mas também em relação aos sistemas diagnósticos adotados e para os tipos de tratamentos a serem oferecidos.

Se lembrarmos que de acordo com a cartilha
Caminhos para uma Política de Saúde Mental Infanto-Juvenil do Ministério da Saúde do Brasil, temos entre as diretrizes políticas sobre saúde mental para infância e adolescência, “a condição da criança e do adolescente como sujeitos de responsabilidades e direitos”. É sobre essa diretriz que podemos pensar um tratamento que não seja necessariamente medicalizante.

A noção de sujeito implica também a de singularidade, que opõe-se a padrões diagnósticos e medicamentosos, uma vez que fomentam uma prática homogênea, massiva e institucionalizada.

Afinal, a medicalização da infância em que se alia uma clínica extremamente medicamentosa e de um diagnóstico fenomênico e estatístico - destaca-se aqui a
trajetória histórica controversa do diagnóstico do TDAH -, é uma prática normalizante, que fere a noção de sujeito e subjetividade. Sujeito este que é responsável por suas demandas, pelo seu sofrimento psíquico e que não deve ser diagnosticado tão somente em termos de desvio em relação à norma.

Promove-se, assim, não só a padronização da criança que sofre do suposto TDAH ou de outros transtornos, mas de todo o sujeito que tem seus sofrimentos codificados e subordinados pelo discurso médico-científico. E seu sintoma, que será tratado através da medicação, não passa de uma manifestação da desordem bioquímica cerebral.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sobre Realengo e os Psicólogos

A tragédia de Realengo reacende, mais uma vez, antigos debates dentro do campo psi, principalmente no que diz respeito à sua relação com a mídia: um psicólogo vir a público fazer um diagnóstico indica que este está interessado somente na sua autopromoção ou o interesse é em ajudar na promoção de um show de horrores que ajuda a aumentar audiêncai.Para profissionais preocupados com a prática psicológica, não há outro motivo que justifique sua presença ali, distribuindo diagnósticos. Compactuar com isso é banalizar a profissão do psicólogo, é desqualificar a sua formação e ajuda a promover tão somente estereótipos em cima de pessoas que sofrem. Afinal, numa situação em que temos um crime violento, em que o próprio autor do crime se suicidou, qual a serventia de diagnosticá-lo como psicótico? Um diagnóstico tem função precisa: estabelecer caminhos para tratamento. Diagnosticar um falecido, em momentos de comoção pública, serve apenas para atemorizar a população: se digo, com o ar de especialista, que se trata de um esquizofrênico, como fica no imaginário popular nesse momento em que estão todos consternados a imagem dos psicóticos? Com a pecha de assassinos? Sabemos que essas respostas violentas são possíveis, mas não são as únicas que os psicóticos constroem. Em vez de termos a oportunidade de discutir o que é a psicose, desmistificá-la, pensar tratamentos, acabamos apenas responsabilizando uma afecção como responsável pela tragédia. Além de disseminar ainda mais uma prática de medicalização do sofrimento psíquico, ajuda a promover a idéia retrógrada de que a escola deva ser um local vigiado, fechado e sem inserção social. Não seria uma boa oportunidade de discutrimos a educação pública, a segurança pública, a saúde pública, as condições e direitos do trabalhador a tratamentos psicológicos? Discutir e pensar estratégias de articular essas políticas? Estigmatizar um sofrimento como a responsabilidade total, além de difundir pânico e desinformação, impede que as questões realmente relevantes sejam debatidas. E assim prossegue a gama de desinformações,estereótipos e práticas que não levam em consideração o sujeito e que deixam de lado o exercício da cidadania.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ferramentas de debate

Aqui descrevemos uma prévia das ferramentas que utilizaremos inicialmente neste projeto para integrar diversas pessoas das mais diferentes regiões do país para que possamos construir um modo novo de trabalho. Neste trabalho coletivo sobre políticas públicas aceitaremos produção de vídeos de práticas inovadoras em saúde mental e educação. Os comentários sobre estas práticas podem ser feitos via textos ou via vídeos.

Uma outra ferramenta que utilizaremos é o formspring. O formspring é uma rede social de perguntas e respostas. Por esta via levantaremos um tema e os leitores do blog podem fazer perguntas sobre ele. As perguntas serão encaminhadas a uma ou mais pessoas que poderão responder via formspring ou fazer um vídeo com as respostas. Os resultados serão apresentados sob a forma de post no blog. Para entrar no formspring, clique aqui: http://www.formspring.me/

Twittcam é uma ferramenta bem interessante: ela permite uma interação ao vivo entre alguém que está expondo um tema e as pessoas que tenham twitter. Os moderadores do blog irão selecionar, durante a apresentação, as melhores perguntas que serão respondidas pelo apresentador. Para entrar no twitter, clique aqui: http://twitter.com/

Linkedln: uma ferramenta para a formação de redes profissionais e grupos de trabalho para a construção de parcerias. Os resultados também serão colocados no post e discutidos em seguida com os frequentadores do blog. Para entrar no Linkedin, clique aqui: http://www.linkedin.com/

Utilizaremos o facebook também como forma de comunicação de atualização do blog. Para inscrever-se no facebook, clique aqui:

Para encontrar nosso perfil utilize o e-mail politicanupep@gmail.com.

Boa sorte a todos nós!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Pra começo de conversa



O psicólogo, hoje, não pode deixar de tomar como ponto de articulação necessária à sua atuação a dimensão das políticas públicas. Podemos exemplificar as políticas públicas em saúde mental e educação: Política da Reforma Psiquiátrica; Programa Saúde da Família; Política de Atenção a Álcool e Drogas; Educação Especial; Educação Inclusiva; Educação à Distância; Educação Profissional; Educação de Jovens e Adultos, entre outras.

Acreditamos que o uso do termo política não é gratuito. E como um termo especifica um conceito que delimita um campo de ação e um campo de debate, nos deparamos com algumas questões relevantes para essa discussão: a questão da política em seu sentido mais amplo. Assim, as políticas públicas determinam um campo de ação que deve ser pensado a partir da dimensão do laço social, dos meios de convivência a serem pensados ou desejados. Estas ações da política pública se dão no da Pólis: espaço de convivência entre os diversos cidadãos em que diversos desejos se entrecruzam.

Nosso objetivo é fomentar um debate em torno das noções de políticas públicas específicas em saúde mental e educação e tomar um viés mais amplo em que o Político possa se apresentar sem a necessidade dos espaços e meios tradicionais: associações de pessoas que serão representadas por outras, mas que cada um, em seu próprio nome possa participar deste debate e da construção de conhecimento em torno de um tema tão caro e necessário ao psicólogo de hoje. Isso se dará de maneira que o psicólogo possa debater com outros psicólogos e com profissionais de outras áreas que trarão outros conhecimentos específicos e modos de pensar a política.

Por meios tradicionais entendemos a reunião de pessoas físicas em espaços físicos comuns: os Congressos, Associações de Bairro, Partidos Políticos, Associações Profissionais, etc. Acreditamos que estes espaços são importantes de serem mantidos, mas acreditamos também que hoje dispomos de ferramentas de informação e comunicação que permitem outros modos de interação e que possibilitam novas experiências na dimensão pensar e do fazer. Daí a necessidade de fazermos. Daí a necessidade de utilizarmos esses meios como mas em extensão aos espaços tradicionais, criando fóruns de discussão em outras mídias. A conseqüência que desejamos é que a comunidade acadêmica participe destes debates, mas também setores não acadêmicos e o cidadão comum que, de um modo ou de outro, é afetado pelos modos de pensar a política – os laços sociais – e as políticas públicas derivadas destes laços.

Em relação às questões da saúde mental, debateremos inicialmente:

  • no que tange à implementação da política de saúde mental amparada no movimento da Reforma Psiquiátrica: ha mudanças nela desde sua implementação, principalmente em relação aos seus objetivos. Como fica a questão da responsabilidade do portador de transtornos mentais? Ou como coloca Oswaldo França Neto, como implicar o louco como sujeito e não somente pensar a sua inclusão social.
  • no que ser refere à política específica de álcool e drogas. Tratá-la como dependência química não seria uma maneira de retrair o sujeito de cena, pois o sujeito aí não seria reduzido a uma existência biológica sem a possibilidade de sua responsabilização?
  • E no que diz respeito às Políticas voltadas para o Programa Saúde da Família: como integrá-lo de maneira mais eficaz às redes de atenção em Saúde Mental?
Sobre as políticas públicas relacionadas a educação decidimos iniciar a discussão a partir de algumas questões:
  •  a obrigatoriedade do ensino fundamental tem sido assegurada, assim como, a qualidade do ensino em questão? Como possibilitar a participação de todos os envolvidos no processo educacional (estado, profissionais da educação, pais e alunos) para a promoção de um educação pública de qualidade?
  • como a criação de programas nacionais para a educação, tais como o Reuni e o Universidade Aberta do Brasil, relacionados a uma política inclusão social e expansão do ensino superior, têm influenciado a educação nacional? A forma como essas políticas estão sendo implantadas respondem as necessidades sociais? Qual o impacto dessas políticas nas universidades, incluindo a questão da autonomia universitária?
  • a política de formação de professores e o oferecimento de vagas a partir da Plataforma Paulo Freire para Plano Nacional de Professores da Escola Básica implicam em um comprometimento do professorado? Esses professores estão apenas obrigados por lei à formação? Qual a real participação da classe nessas políticas?
 E aliando as duas dimensões dos problemas:
  •  quais os impactos para as regiões em que temos expansão universitária do Reuni com a abertura de cursos tanto na área de educação quanto na área de saúde?